
Etimologia e uso no grego clássico
Lógos (λόγος) deriva do verbo légo (λεγω) que significa “dizer”, “contar”, “reunir”, “ordenar”. Heráclito o define como o princípio racional e ordenativo do cosmos. Em Platão e Aristóteles, lógos é a faculdade racional da alma, o discurso lógico que expressa o pensamento sendo (ao lado de etthos e pathos), um dos três pilares da retórica. Os estoicos viam lógos como o princípio divino imanente que permeia o universo (lógos spermatikós).
Lógos e lógica: qual a relação?
A palavra lógica vem diretamente de lógos. Em Aristóteles, a lógica (λογική) é o estudo das formas válidas de raciocínio – e ele é considerado o “pai da lógica” por sistematizar o silogismo. No entanto, lógos é mais amplo do que lógica:
- Lógos inclui discurso, razão, narrativa, princípio cósmico, revelação divina.
- A lógica é uma ramificação técnica do lógos, focada na estrutura do pensamento racional.
| Termo | Significado | Alcance |
| Lógos | Palavra, razão, discurso, princípio ordenativo | Filosófico, teológico, retórico |
| Lógica | Estudo das regras do raciocínio válido | Formal, analítico, argumentativo |
Lógos é a fonte; lógica é um dos rios que dela fluem.
Transição para o grego koinê e a Septuaginta
A Septuaginta (LXX), tradução grega do Antigo Testamento, desempenha um papel crucial na ponte entre o mundo helênico e a teologia bíblica. Nela, lógos traduz o hebraico דָּבָר (davar), que carrega o sentido de “palavra”, “ordem”, “evento” ou “ato”. Exemplo: Salmo 33.6 (LXX 32.6)
τοῖς λόγοις τοῦ Κυρίου οἱ οὐρανοὶ ἐστερεώθησαν
Pela palavra (lógos) do Senhor foram firmados os céus.
Neste versículo, lógos não é um mero som ou vocábulo, ele carrega poder criador. Isso já aponta para o que João irá desenvolver no capítulo 1: o Lógos como o meio pelo qual Deus cria todas as coisas, agora plenamente revelado como Cristo.
Esse uso também ecoa Gênesis 1, onde Deus “disse” e tudo veio à existência. A Septuaginta, ao empregar lógos nessas passagens, pavimenta o caminho teológico para identificar o Verbo como agente da Criação.
Uso no Novo Testamento
A palavra λόγος aparece mais de 300 vezes nos escritos do Novo Testamento. Embora muitas dessas ocorrências possam significar simplesmente “palavra”, “discurso” ou “mensagem”, existe uma densidade teológica crescente em torno do termo, culminando na sua aplicação direta a Cristo.
Diversidade de usos nos Evangelhos e Epístolas
| Uso | Exemplo bíblico | Significado |
| Palavra falada ou ensinamento | Mateus 12.36 – “De toda palavra (lógos) frívola que proferirem os homens…” | Fala cotidiana |
| Mensagem divina | Lucas 5.1 – “…estavam apertando-o para ouvir a palavra (lógos) de Deus” | Evangelho como revelação |
| Palavra profética | Atos 4.31 – “…anunciavam com ousadia o lógos de Deus” | Inspiração sobrenatural |
| Palavra vivificante | Hebreus 4.12 – “A palavra (lógos) de Deus é viva e eficaz…” | Discurso que penetra o coração humano |
| Cristo como Lógos | João 1:. – “No princípio era o Lógos…” | Pessoa Divina encarnada |
Note-se que o Novo Testamento concentra e expande o significado de lógos, partindo do uso comum para carregá-lo de implicações teológicas cada vez mais profundas.
Implicações teológicas
Em João 1.1 João faz uma fusão radical: ele recupera o conceito filosófico do lógos como razão ordenadora do universo, reinterpreta a noção judaica da Palavra de Deus como criadora e reveladora (cf. Gênesis 1, Salmo 33.6, Provérbios 8) e declara que o Lógos é pessoal, eterno, divino e encarnado.
João 1.14 (“E o Lógos se fez carne, e habitou entre nós…”) é o clímax teológico. O mesmo princípio eterno que cria o mundo assume forma humana. O Lógos agora fala com voz humana, anda em ruas poeirentas, abraça e perdoa. João não está apenas se apropriando de um termo conhecido para se comunicar com gregos e judeus cultos. Ele está corrigindo uma concepção impessoal de razão ou revelação, substituindo a abstração por uma Pessoa que se relaciona e reenquadrando a lógica cósmica em termos de comunhão redentora.
O lógos, que os filósofos pensaram como razão cósmica e os profetas como palavra criadora, revela-se no Novo Testamento não apenas como meio, mas como o próprio Deus que se comunica, encarnando-se, falando. Vivendo entre nós!
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