A jornada teológica da palavra grega histérema (ὑστέρημα)

Palavras não são apenas ferramentas de linguagem, elas carregam história, contexto e transformação. Neste artigo, vamos acompanhar a trajetória da palavra grega ὑστέρημα (hysterēma) e entender como ela evoluiu de um termo técnico, usado por médicos e filósofos gregos, para uma expressão de fé, entrega e redenção nas Escrituras cristãs.

Na medicina grega: quando a falta gera enfermidade

No Corpus Hippocraticum, especialmente no tratado Da natureza do homem (Περὶ φύσιος ἀνθρώπου), atribuído a Pólibo, genro de Hipócrates, a palavra ὑστέρημα é usada para descrever deficiências fisiológicas que afetam o equilíbrio dos humores do corpo humano.

“O homem adoece quando há falta (ὑστέρημα) ou excesso de um desses humores…”

Corpus Hippocraticum, parágrafo 4 (NH 4 Littré)

Neste contexto, ὑστέρημα refere-se à ausência de elementos vitais (como sangue, bile ou fleuma), provocando desarmonia no organismo — um conceito fundamental para a medicina grega antiga.

Na filosofia: quando a ausência revela virtude

Embora o substantivo ὑστέρημα não apareça diretamente nos textos de Aristóteles, o verbo relacionado ὑστερέω (estar em falta) surge em debates éticos sobre virtude moral. Em Ética a Nicômaco, Livro II, capítulo 6 Aristóteles descreve a virtude como um “meio-termo” entre dois extremos — o excesso e a falta (ὑστερέω) — revelando que o caminho ético ideal nasce justamente da evitação consciente da carência moral.

A palavra, então, migra do físico para o ético: uma ausência que precisa ser confrontada e corrigida.

No Novo Testamento: escassez como entrega espiritual

No grego koiné, especialmente nas Escrituras, ὑστέρημα se transforma em um conceito profundamente teológico — indicando carência, vulnerabilidade e entrega sacrificial.

“…mas esta, da sua escassez (ὑστερήματος), deu tudo o que tinha…” Aqui, a escassez da viúva é honrada por Jesus — ela oferece não a sobra, mas o que lhe faltava, e sua fé brilha no meio da falta.

Lucas 21.4

“…para que também a abundância deles supra o vosso ὑστέρημα…” A palavra assume valor comunitário, como uma lacuna suprida por amor mútuo.

2Coríntios 8.24

“…o que resta (τὰ ὑστερήματα) das aflições de Cristo…” Neste verso, ὑστέρημα expressa um mistério: o crente participa das dores de Cristo. A falta torna-se comunhão, a escassez vira ponte para o sagrado.

Colossenses 1.24

Conclusão

A palavra ὑστέρημα nos ensina que a falta nem sempre é um limite — ela pode ser o espaço onde a graça opera com mais liberdade. A escassez que antes adoecia o corpo, agora convida o Espírito a agir. É a entrega no vazio que permite o milagre da plenitude.

Na nossa vida, onde reconhecemos carência — emocional, espiritual, relacional — é onde podemos experimentar o agir redentor de Deus.

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