Não é este o carpinteiro, filho de Maria, e irmão de Tiago, e de José, e de Judas e de Simão? E não estão aqui conosco suas irmãs? E escandalizavam-se nele. (Marcos 6.3)
Em Marcos 6.3, depois de ouvir Jesus ensinar na sinagoga de Nazaré, a população faz uma pergunta aparentemente simples: “Não é este o carpinteiro?”. Logo em seguida, Marcos afirma que eles “se escandalizavam dele”. A palavra traduzida por “escandalizavam” é o verbo grego σκανδαλίζω (skandalízō).
Essa palavra vem do substantivo σκάνδαλον (skándalon), que originalmente designava a peça de uma armadilha que fazia o mecanismo disparar. Por isso, seu significado passou a indicar algo que leva uma pessoa a tropeçar, cair ou ficar presa em uma armadilha. No Novo Testamento, o termo não descreve apenas alguém que ficou ofendido ou chocado. Ele fala de alguém que encontra um obstáculo que o impede de crer e seguir o caminho de Deus.
Foi exatamente isso que aconteceu em Nazaré. Os moradores ficaram impressionados com a sabedoria de Jesus e com os relatos de seus milagres. Mesmo assim, não conseguiram reconhecê-lo como o Messias. Eles sabiam quem era sua família, conheciam sua profissão e lembravam-se de sua vida na cidade. Essas informações eram verdadeiras, mas incompletas. O conhecimento que possuíam tornou-se um obstáculo para enxergar quem Jesus realmente era.
Da mesma raiz grega surgiu, por meio do latim scandalum, a palavra portuguesa escândalo. Hoje ela costuma ser usada para descrever algo chocante ou vergonhoso. Na Bíblia, porém, a ideia principal é a de um tropeço espiritual. Um escândalo é qualquer coisa que nos impede de ver, receber e obedecer à verdade.
A passagem nos lembra que é possível saber muitas coisas sobre Jesus e, ainda assim, não reconhecê-lo plenamente. Podemos conhecer histórias bíblicas, frequentar cultos há muitos anos e repetir versículos de memória. Tudo isso é valioso. O problema começa quando o conhecimento produz acomodação e nos faz pensar que já não temos mais nada para aprender.
A tragédia de Nazaré não foi a falta de conhecimento sobre Jesus. As pessoas sabiam quem ele era, conheciam sua família, lembravam-se de seu trabalho e o viram crescer entre elas. O problema foi outro: elas pensaram que já sabiam tudo sobre ele. Quando Jesus ensinou com autoridade, não conseguiram enxergar além da imagem que haviam construído. Diante delas estava o Filho de Deus, mas seus olhos viam apenas o carpinteiro. Elas tropeçaram justamente naquilo que lhes era mais familiar.
Isso também pode acontecer conosco. Frequentamos cultos, lemos a Bíblia, repetimos versículos e ouvimos falar de Jesus durante anos. Tudo isso é uma bênção. Mas existe um perigo silencioso: achar que já conhecemos Jesus o suficiente e, por isso, deixar de ouvi-lo com atenção. A fé perde força quando a admiração dá lugar ao costume.
Talvez o maior obstáculo para seguir Jesus não seja a dúvida declarada, mas a falsa sensação de que não precisamos mais aprender com ele. Quando isso acontece, deixamos de ouvir sua voz, de reconhecer nossos erros e de permitir que sua Palavra transforme nossa vida.
Por isso, o convite de Marcos 6 é simples e profundo: aproxime-se novamente de Jesus com a humildade de quem ainda tem muito a descobrir. Leia as Escrituras com atenção. Ouça sua voz com um coração disposto a aprender. Permita que ele desafie suas certezas e transforme suas escolhas. Aquele que os moradores de Nazaré viram apenas como um homem comum é, na verdade, o Senhor da vida. Quem se aproxima dele com humildade descobre que sempre há mais graça para receber, mais verdade para compreender e mais motivos para adorá-lo. Não deixe que a familiaridade roube o seu encanto por Jesus. Redescubra quem ele é e permita que sua presença volte a despertar admiração, reverência e fé em seu coração.
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